Para Agricultura, Brasil precisaria dobrar torres de celular no campo

FONTE: TeleTime

O Ministério da Agricultura divulgará, nos próximos dias, uma pesquisa inédita sobre conectividade no campo, realizada pela Esalq (Escola de Agricultura da Universidade e São Paulo), e que cruzou pela primeira vez dados da cobertura móvel no Brasil (2G, 3G e 4G), ajustados pela metodologia Longley-Rice (Irregular Terrain Model – ITM), que projeta o nível real de sinal em função das condições geográficas de terreno, vegetação e clima,  com os dados de renda dos estabelecimentos rurais, qualidade de solo, densidade de imóveis entre outras variáveis. Os números da pesquisa ainda não são públicos, mas um dado relevante foi antecipado no Congresso Latinoamericano de Satélites realizado na semana passada, e organizado pela TELETIME. A constatação é que com um investimento relativamente baixo, é possível ampliar de forma significativa a cobertura rural no Brasil. Segundo a modelagem adotada pela pesquisa, um aumento de 25% nas ERBs rurais poderia ampliar a conectividade no campo em 107 milhões de hectares, considerando torres com raio de alcance de 15 km a 30 km. Para se ter uma ideia, o Estado do Mato Grosso sozinho tem 90 milhões de hectares. Uma ampliação neste percentual, contudo, é relativamente pequena em termos numéricos: equivale a 2,5 mil torres rurais, o que daria um custo de cerca de R$ 1,5 bilhão. Segundo a pesquisa, o Brasil tem hoje pouco mais de 9 mil torres em áreas rurais (cerca de 10% do total), sendo que seriam necessárias pelos menos o dobro (20 mil torres) para atender completamente as áreas produtivas.

Segundo Luis Cláudio França, diretor de conectividade do Ministério da Agricultura, que encomendou a pesquisa, um dos grandes desafios é assegurar infraestrutura para conectar estas torres. Segundo ele, este é um papel que pode ser ocupado pelo mercado de satélites, por exemplo. “Mas não é só conectividade. O setor agro no Brasil tem imensa necessidade de aplicações de imagem por satélite, por exemplo, e existe uma oportunidade grande de parcerias.

Para o Ministério da Agricultura, a ausência de conectividade é um dos graves problemas para o desenvolvimento da agricultura 4.0 no Brasil, que consiste em dotar os centros de produção com capacidade de conectar sensores e maquinário em tempo real. O Brasil é hoje o segundo produtor mundial de alimentos, será o primeiro até 2025  e precisaria dobrar a sua produção até 2050 para atender ao aumento de demanda no mundo. A FAO (Food and Agriculture Organization, ligada à ONU) estima que o Brasil responderá por 40% das demandas mundiais futuras de alimentos. “Sem a conectividade, isso será impossível”, diz França. Hoje, segundo Eduardo Bessa, diretor da Gilat, apenas 10% das fazendas estão conectadas.

Para França, o agronegócio tem necessidade de conectividade e é um setor com capacidade de investimento. “Felizmente, o setor de telecomunicações acordou para o campo. Agora precisamos trabalhar nas políticas para atender às demandas da agricultura”, diz ele. Ele destacou que a bancada do agronegócio foi importante para a aprovação do PLC 79/2016, por exemplo, numa articulação que envolveu o Ministério da Agricultura. “É um setor que cresce 13% ao ano, investe pesado em tecnologia há décadas, já está modernizado”.

Sérgio Chaves, da Hispamar, destacou que a interoperabilidade para que todos os dispositivos conversem entre si também é um desafio. “É preciso ir além da conexão, e chegar com a solução completa. E cada máquina e cada fabricante tem a sua língua”.

Carlos Xavier, da SpaceBridge, concorda com a Hispamar. “Ainda falta chegar efetivamente no campo, desenvolvendo uma conectividade integrada ao sensor”, disse.

A pesquisadora Marlene Pontes  do CETUC (/PUC Rio) está coordenando uma pesquisa de dois anos com diferentes atores do mercado de telecomunicações e agronegócio (por enquanto, sete empresas já estão participando) para aferir as melhores maneiras de ampliar a produtividade rural a partir de sensores conectados. A pesquisa partiu do Plano de IoT e dos estudos do BNDES. Os primeiros resultados devem ser apresentados em seis meses.

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